domingo, 25 de abril de 2010

Choveu e a casa está cheia
E pra formar um mar só falta areia

A dona da casa olha a água escorrendo
Pela casa e nos seus olhos, nos cantos
Neste choro até sente-se podendo
Jurar vir toda a água de seus prantos

Fazendo-se de forte para a amada
O marido por dentro está morrendo
Mas pensa: Como posso não ter nada
E tudo o que possuo estar perdendo?

Choveu e a casa está cheia
E pra formar um mar só falta areia

Existe neste mundo algum culpado
Por toda esta desgraça desta gente?
É chuva, é fome, é sede, em todo lado
E a revolta esvaindo na aguardente

E a aguardia os olhos do casal
Desiludido disse o homem fraco:
Se é pra continuar sofrendo tal
Melhor morrermos juntos no barraco

Choveu e a casa está lama
E pra formar velório falta grana

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P.S.: A poesia foi escrita antes das tragédias que ocorreram no Rio/Niterói, mas não foi nenhuma previdência!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Olho o mar
Me arrepio
Não é frio
É saudade
Me navego
Me entrego
A olhar
Não é frio
Sou navio:
Liberdade!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Diagnóstico da Morte

Um adulto putrefato
Nem poeira pueril
De resto, um rosto de rato
Da velha víbora vil

Quando quieto no seu canto
Pensa poder ser peralta
Sua seu suor de santo
Mas te assusta se te assalta

Não cede nem se tem sede
Fomo ele finge não ter
Vá então tu mesmo e vede
Cuidado! Que quer te ver

Se ela aparece parece
Juro! Que jorra gelado
No peito e apressa-se a prece
Morre de medo o coitado

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Hai de ti Haiti
Que em teu nome já há tanta lamentação
Hai de ti Haiti
Passarinho negro sob a destruição

domingo, 22 de novembro de 2009

Fico tanto tempo no chuveiro
Porque ele faz a função do teu corpo:
Esquentar meu corpo inteiro

Embora o chuveiro esquente
Toda a matéria contraria
O corpo que está tão quente
Na alma que está tão fria
Só de ver-te a mim bramir
Num furor incoercível
Só de ver-te reluzir
Como um espelho Narciso
Julgando-se inescrutável
No auge da mocidade
Mostrando-se incomparável
Dona de muitas vontades

Penso em revelar-te logo
Que és nem terço do que pensas
Que o calor deste teu fogo
Não tem energia imensa
Que o que divulgas a mim
Antes sei ser tua fraude
Que o engano é teu confim
Que mentindo faz alarde

Mas calo-me esperando
Inerte, tua atitude
Que insulta-me provocando
E que insiste amiúde
Escrutando tua coragem
Rasgo tua roupa e tento
Provar ser tudo bobagem
E nisso não me contento

Mas tu, despida, prossegue
Legitimando o teu dito
Exige que a roupa entregue
Ficando também despido
Após me insitar desejo
Delira no meu delírio
Aproveitando o ansejo
Se viola, eu te dedilho

E num ritual macabro
De gozo e de mazoquismo
Rasga-me as costas, lhe abro
Num recíproco sadismo
Ignorando a decência
Como animais se espancando
Os corpos, a efervescência
O sangue, e nós dois suando

Depois de horas frenéticas
De luta, de desvario
As nossas caras patéticas
Eu, maluco, tu, no cio
Concluo ter veracidade
No que disse horas atrás
Mas não digo, e assim, mais tarde
Dormindo, enfim, temos paz

17/02/2007

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Que saudade!
Como pode toda a história caber-se agora nesta fotografia?
Lamentoso e nostálgico
Contemplo o instante passado
Há um pedaço de mar entre as nossas bocas
E todo o resto é contorno.
Se fecho os olhos some a fotografia
Mas o instante toma forma e movimento
E o idealizo cada vez mais
Mais do que tenha sido.
O sol me parece o futuro
(presente em que escrevo)
E ele ilumina o passado
Saudosista como eu.
Eu sou o sol agora e queimo
Bilhões de graus e degraus de pura decida
Do presente-passado ao futuro-presente
Do "nascer-do-sol" ao "sol-posto"
Queimo como a fotografia poderia queimar-se
E como queimou o beijo eternizado.
Agora sou todo o mar
Escorrendo no seus braços de manhã
Perfazendo seus contornos
Como só a água lacrimal do amor o pode
Convidando-a a seguir paralelamente, ao horizonte

Esperando pacientemente o infinito.

Te amo. Te espero.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sentados no chão, senti
Naquele momento raro
Os olhos salgados de molhos
E a gente ficou ali
Vendo estrela em dia claro
E namorando com os olhos

sábado, 23 de maio de 2009

Quando amanhecer
E o sol erguer-se senhoril
Em seu eterno solilóquio
Quando aparecer
No dia feras sem covil
E sem narizes de Pinóquio

Vai ser um dia tão comum
Que você nem vai perceber
Em cada instante pranto algum
E em cada pranto algum prazer

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Poema

Incauto o rapaz pergunta:
Morre comigo?
Prudente a moça responde:
Vivamos juntos!
Tolos, o amor transcende.

(Escrito em parceria com Estrela Ingrid Mattos)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O lado concreto do amor! (inacabado)

Vou confessar-lhe. Menti todas as vezes que disse-lhe não amar. Te amei. E como amei! Todas as vezes que o meu corpo pesado relaxava sobre o seu, sujo de mim. Inertes. Te amei. Te amei com o meu corpo. Unicamente com ele. E com a mente, pelo corpo. No corpo todo. Onde o suor nos pôde molhar.

Nossos corpos nauseados, extasiados, fumegados, flambados. O amor não pode ser mais intenso que a nossa felinidade, que a nossa abstrusa expiração, e que a aspiração à inspiração . Não pode ser mais abrasador que os nossos relâmpagos. E os brados trovoantes? Há amor mais sincero que este meu? No meu estado estatelado, minha figura caótica não estava explicitando que eu te amei?

Não! Não posso mentir pra você. Te amei. Amei a brasa, o fogo. A gravidade. A atração dos corpos compostos. A atração dos opostos. Talvez você nunca entenda o meu amor. Provável fique perplexa, me queira mal depois desta confissão. Mas o amor tem dessas coisas. O meu amor era puro. E real. Sem nada de platônico. Um amor. Verdadeiramente. Materialista. Sensível às apelações da pele. Ao magnetismo insofismável. Amei a rosa opulenta. O gosto de concreto e cimento. As horas intermináveis. As filosofias monossilábicas pós-voluptuosidade. O caos dos nossos mutuos-flagelos sem mazela alguma. Amei as convulsões, os gêiseres. E a tua cara de satisfação. Ah, a tua cara de satisfação, de longe, foi o que mais amei. Amei o teu corpo, respondendo em liquefação a todos os meus apelos incoercíveis. As tuas erupções. Vulcão, como te amei. E todos estes seus graus.

E hoje, por mais que eu não possa te amar; pela sórdida determinação convencionada (não por mim) por esta sociedade; pela sua burrice; pela sua errônea definição de amar; por esta culpa que se pretende impor sobre si mesmo (e denominá-la amor); ainda sim, haverei te amado. Por mais que se anseie expedir as fotografias e aniquilar as lembranças, o que há de amor permanecerá: o instante, inabalável, inalterável, nas artérias do tempo, nas veias do espaço. Na pulsação contígua. Em nosso mais íntimo sossego.

Prazer, sou um palhaço!

Vendo o quanto dizem de mim, percebo o quanto me conhecem e escorrem lágrimas nos olhos. Eis o paradoxo: o palhaço é triste. A sublimação da alegria no outro é a busca imensurável da alegria em si. E por tempos elas se confundem, afinal, alegria é alegria. Errado. O nosso individualismo não nos permite ser por completo feliz no outro. É um passo. Mas quem se faz no outro foge de si. Centrífuga.

Por falar em fuga. Aos poucos fogem os que me amam. Talvez seja porque amar machuca. Não sei. Ainda não resolvi em quê acreditar a cerca do amor. Sei que se alguém lhe ama, aproveite, não deve durar. Ao menos ao que me parece é assim.

Ai de mim que a vida é dura. E tanto que ainda não sei. No poço das incertezas ecoa minha voz e lá no fundo, nas rasas águas lacrimais que talvez existam, a minha imagem reflete. Não a do palhaço, maquiado, travestido. No poço é a imagem do íntimo que [,pelo escuro, não] se vê.

O olhar diagonal do palhaço diz que o palhaço é de palha. Mas pensam que ele é de aço! O palhaço se deixa levar, se deixa bater, se deixa apanhar, e isso causa risos. Descobri no palhaço que piada é desgraça. Que desgraça tem graça [e des]de muito tempo é assim. É imutável. Tacam fogo no palhaço, pensando que ele é de aço. Mas o palhaço é de palha. Retalha[-se]. Falha. E já não é como antes.

Palhaço do riso empalhado.

Cheio de palhaçadas!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Anna Carolina

Quando você me conheceu já sabia (fingindo que não) que seria eu.
Quando eu te conheci você já me conhecia. E rápido eu soube (sem fingir que não) que seria você.
Não houve tempo desde que nossos olhares se encontraram para que eles se apaixonassem.
Houve pouco tempo para que nossas bocas se encontrassem
O tempo exato para que elas se preparassem (as bocas) uma para absorver a outra.
Tudo ocorreu com a exatidão e a magia necessárias às grandes histórias. E com grilos saltitantes e poesia.

Mas você não estava preparada pra mim
Então a poesia teve de esperar

Quando você se preparou... estava tão bem vestida, tão nobre de amor que a minha roupa de plebe não lhe fez jus!

Eu não estava preparado pra você
Então a poesia teve de esperar

Enquanto ela espera dormimos sossegados um no outro
Nos namoramos... nos sentimos tão sinceramente que eram música
As borboletas azuis dançando em nossas barrigas

E ela espera... lá onde o sono do Sol se desfaz e ele acorda... luminoso e quente, como o amor deve ser
A poesia espera tocando no tempo com sua mão leve e tão delicada que vez por outra o faz dormir
E o tempo para...

Quando estivermos sublimados o bastante para prosseguir no mesmo passo... mesmo caminho... para jogar fora uma segunda escova de dentes... então a poesia deixará de esperar e não será papel, será um sentimento único, uma só emoção; uma só verdade condensada.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Vazio

Hoje o dia amanheceu chuvoso. Permaneci acordado. Tinha sono e vontade de dormir, mas não dormi porque era inútil, como ficar acordado. Senti fome, não comi. Senti sede, não bebi. A vontade de não fazer coisa alguma me consumia. Estava em frente ao computador e no entanto não lia. Sequer olhava a tela. O dia ia amanhecendo e eu ali. Resolvi escrever este texto. Talvez ele apague o meu vazio por ser mais vazio que eu. Texto vazio, eu tenho pena - Não estou tão vazio, tenho pena!