quinta-feira, 23 de junho de 2011

Da engrenagem

A vida poderia ser mais fácil
Sempre penso isso!
Fico pensando o quanto é necessário sofrer
Para se conseguir alguma coisa
E para no fim vermos
Que na verdade não temos nada.
Viver é isso: buscar.
Mas uma busca tão sem sentido!
Não se sabe o que é buscado, mas se busca!
Ao mesmo tempo um sentimento de frustração
Por não se ter encontrado o que se quer!
E a minha reflexão é esta:
A vida poderia ser mais fácil!
São conflitos sobre conflitos!
E conflitos sobre qual a caracterização destes conflitos...
O tempo parece sempre diminuir
E à medida que se vai envelhecendo
Surgindo a necessidade por mais tempo
É que ele some mais facilmente
E com o tempo diminuindo...
Mais atividades... trabalho, estudo, militância, namoro, família, amigos
Cada um exigindo de você
Um tempo que você não tem...
um tempo que você não pode dar
quem sabe a um deles...
E você se pergunta:
Ei! Onde eu entro nesta história?
Por outro lado
As coisas acontecem
E a gente vai sempre se acostumando a elas
Sempre se moldando para estar nelas
Se modelando. Sempre se encaixando
E perdendo forma para outra forma
As coisas lhe são impostas!
E na maioria das vezes você nem grita!
Nem xinga, nem bate!
Na maioria da vezes você admite
E a deformação do seu eu
Vai se dando externa e internamente
Para um eu-quadrado
Ou um eu-oval
Ou um eu-triângulo
Sempre um eu-não-eu!
Sempre se tornando aquilo
Que você nunca foi!
Nunca pretendeu ser
Sempre se distanciando
Dos seus sonhos
Dos seus pensamentos mais íntimos
Sempre se esquecendo deles
Sempre ignorando o que de fato importa
E aprendendo a se importar com o nada
Com o que consegue ser inútil
Sempre perseguindo uma futilidade a mais
Expostas nas prateleiras
Rosas, verdes, amarelas,
A que combina com a estação
Com a hora, com o instante
A que vai me dar o menor valor calórico
O que tem ar condicionado
O que todo mundo quer
O que é diferente de todo mundo
O que passa na TV
O que não passa na TV
E tudo é colocado em prateleiras
Em prateleiras gigantes
Imensas, montanhas de prateleiras
Bicho, camisa, almofada,
Bebida, comida, escola
Saúde, Doença, irmão
Pai, estuprador, delegado
Apresentador, Cigarro, cadeira
Mãe, algodão, chave de casa
Tudo numa mesma prateleira
Tudo como objeto do tempo
Tudo com um molde certo
Exato. Como se fosse assim exatamente.
De forma que o tempo que lhe molda
A idade que lhe molda
Os amigos que lhe moldam
A família que lhe molda
O trabalho que lhe molda
A escola que lhe molda
A cidade que lhe molda
A linguagem que lhe molda
Vão se tornando todos obsoletos
E você se desfaz pouco a pouco
De um e de outro sem fazer questão
Troca, substitiu, compra!
Consegue outro namorado
Um sem o qual você não vive
Um para a vida toda toda toda
E ao mesmo tempo em que ganha presentes
Outro cachorrinho mais fofo
Bem mais fofo que o que morreu
Que está nas fotos da família
Junto com a tia que você odeia.
Você troca de música
E com ela de gosto
E com ele de amigos
E com eles de lugares
E com eles você atualiza as fotos
As sempre fotos sorrindo
Mostrando o quanto é feliz
E que a vida não poderia ser melhor
E que estes amigos são pra sempre
E que você adora esta música
Como nenhuma outra
E que tudo agora é lindo
Mas é tudo uma grande engrenagem
E você é parte
Ou parafuso ou dente
E roda roda roda
Assim como o tudo roda
A terra, o sol, a galáxia
E você pequenino roda
Chegando sempre no mesmo lugar
Fazendo sempre as mesmas coisas
Comendo a mesma comida
Trocando as mesmas roupas
Agindo maquinalmente com as pessoas
“Olá!” “Bom dia” “Boa noite”
“Como vai” “Tudo bem” “Eu também”
Tudo sem exclamação
Tudo sem interrogação
E você roda como uma bola
Do esporte do final de semana
Ou do início do dia
Roda como a sua cabeça roda
No fim da noite de Vinho
Ou de cerveja
Ou de qualquer destilado
Que tenha vindo
Original ou falsamente
De lugares frios ou quentes
Bem diferentes do seu
Você gira como o pneu
De um carro, ou de ônibus
Ou de caminhão ou de moto
Que te leva pro trabalho
E vê o mundo girar a 130 por hora
E você gira como a programação
Que passou ontem e hoje
E que você verá amanhã
Mesmo sabendo do óbvio
Você gira como o seu suor
E como a água
Que não cansa de evaporar
E chover e ser bebida
E ser suada para evaporar
E então você cansa
Fica tonto
Tonto de girar tonto do tempo
Tonto de se encaixar de suar
De sangrar Tonto da vida
Tonto De ficar
Tonto Então você apaga a luz
E deita sem conseguir dormir
Mas na solidão do quarto
Se você pensa, se você reflete
Você preferiria não pensar
Acha-se pequeno diante do mundo
Diante do mar, do céu
Do que há para além
Percebe-se um ignorante
Duvida se Deus existe
Duvida se ele não existe
Questiona padrões
Gestos, atitudes
É então, na reflexão do quarto
Que você, longe de deuses e ídolos
Longe de padres e putas
E de pastores e ovelhas
Longe de reis e mendigos
De opressores e oprimidos
Você se sente novamente humano
O molde fica pequeno demais
E você consegue ser maior
Bem maior que qualquer Deus

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Por que fugiu de mim o velho mar?
Por que das oscilantes afastado
Encontro-me por mar já derramado
Em vagas de deserto a divagar

Vagando a areia ao vento aleatória
E deformando as ondas nas areias
Deserto eu, sem sangue já nas veias
Num barco inconduzível, minha história.

Por que perdeu-se o mar de mim? E agora
Por que me encontro seco? Por que então?
Por que tanta pergunta? Coisa vã!

Converterá-se em mar deserto afora?
Tempos de água e riso voltarão?
Que água é mãe, amante, amiga irmã!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fechar meus olhos para tal imagem
E os meus ouvidos pra sonoridade
Porque é inverno e o amor não cantará
Abrir os olhos obriga coragem
Interrompê-los desperta a saudade
E a impressão de que há o que se não há
JOM - 14/06/2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Narcisinho Feio

Num largo lago logo viu-se um vil
Um ganso feio e fanho, dava pena
Sonhou-se  sonso o ganso numa cena
Que a si fazia um ganso sacro e riu

O lago refletia a relva e o rosto
Do tempo temperando a sua tez
Creu-se crescendo a pluma a pena os pés
Adulterou-se em adulto a contragosto

E pondo-lhe o olhar n'olhos ilhados
Contemplativo o choro refletido
Ondava os olhos seus olhos parados

Caindo a cara com o olhar caido
Submergiu no soneto sonhado
E um cisne se sagrou jaz ganso sido

sábado, 21 de maio de 2011

Currículo da Pobre Preta, Gorda, feia, velha... e ainda Mulher. E a busca de emprego!

Escrevi este currículo
Bem que possa parecer
De fato um tanto ridículo
Porém, por estranho ser,
Que o leia atentamente
Curioso ao diferente

Dados Pessoais

Nome Completo: Maria
Santos Silva de Oliveira
Habito em Olaria
Por três visitei parteira
Sou do Rio de Janeiro
Trinta e nove anos inteiros

Sobre a forma de contato
Telefone é orelhão
Mas não tenho um de fato
E e-mail, não tenho não
Por não ter computador
Que é caro e é pra Dr.

Experiência Profissional
Experiência é tanta
Que aqui para relatar
Posso até perder as contas
E se acaso não lembrar
Importa o que aqui está
-Nem sendo isso alguém lerá-

Eu já fui Dona de casa
Trabalhei de diarista
Tudo cons filhos n’asa
Como feito de artista
Fazia comida, lavava
Roupa e tudo agüentava

Preocupada com o marido
Bonita o quanto possível
Maquiava... e o leite vivo
Derramava imprevisível
Limpava o fogão correndo
Sendo dez uma só sendo:

Mais novo querendo comer
Outro querendo fumar
A menina quis crescer
Por isso resolveu dar
A patroa quer as roupas
E fala boas e poucas

Escuto sem reclamar
Limpo a bagunça todinha
A minha, as do meu lar
E aquela que nem é minha
Pra cuidar do meu marido
E dos meus filhos queridos

Cursos

Curso, eu tenho os da vida
Que a vida não concedeu
Que eu fizesse outros na ida
Do curso que a vida deu
Sei apenas lé-com-cré
(Isso não basta, não é?!)

Foto 3x4

Agora o que mais importa
Pelo que eu sempre noto
Relatarei... sobre a torta
Que aparece na foto:
Preta, Gorda e feia é
Velha, e ainda mulher!

Mas relato defendendo
Com argumento e vigor
Pois qualidade é adendo
Pro povo que é sofredor
O que eu quero é trabalho
O resto, eu como com alho!

¹
Sou preta, cabelo ruim
Mas não dispenso labuta
Se mi’a mãe me fez assim
Chame de filha da puta
E meu cabelo de ouriço
Porém, me dê o serviço

Se pensar bem, tu verás
Que pra uma maior usura
Melhor mi’a pele que traz
A marca da escravatura
Que o salário desce mais
E o teu lucro assegura

²
Sou gorda, do braço forte
Mas não dispenso labora
Se a vida não me deu sorte
Chame de obesa agora
Diga que como chouriço
Porém, me dê o serviço

Se pensar bem, tu verás
Que pra uma maior usura
Pior ser magra demais
Melhor sobrar a gordura
Que o salário desce mais
E o teu lucro assegura

³
Sou velha, de trinta e tantos
Mas não dispenso a panela
Se a idade tira os encantos
Velha e feia é mais que a bela
Chame até de estrupício
Porém, me dê o serviço

Se pensar bem, tu verás
Que pra uma maior usura
Melhor pros saldos finais
Estar perto a sepultura
Que o salário desce mais
E o teu lucro assegura

4
Sou mulher, tenho vagina
Mas não dispenso a enxada
Se sou frágil e pequenina
Tenho a força ocultada
Ofenda-me e o catiço
Porém, me dê o serviço

Se pensar bem tu verás
Que pra uma maior usura
Bem mais que um macho voraz
Vale minha formosura
Que o salário desce mais
E o teu lucro assegura

Informações Adicionais

Já com o diálogo aberto
Vou-lhe chamando patrão
Pois creio que és esperto
E o lucro é tua ambição
Eis aqui a moça torta:
Preta, gorda, quase morta

Se cada das qualidades
Puxa abaixo o meu salário
E tu, só por vaidade
Não me contrata, és otário
Eu vou a um mais esperto
Que me contrata decerto

E quando lá estiver
Recebendo a metade
Meu patrão vai lhe dizer
Que o que eu lhe disse é verdade:
“Sempre é caro o branco e macho
Mulher e preta é capacho”

*
A marca da escravatura
A marca da ignorância
Arrebata a escultura
Que se exalta com pujança
Na testa da negra estampa
A inscrição de inferior
Com o sangue na mão branca
Sangue negro em seu senhor
E o sangue fora da vista
Derramado se esconde
E o branco capitalista
Finge não saber de onde
Vem o rubro escondido
-Não sabe a sua nascente-
E à leste, está esquecido
O gigante continente
Que chora a dor e a avaria
Da humanidade inteira
No sofrimento de Maria
Santos Silva de Oliveira
Que por possuir a cor
Do que é mais subjetivo
Apanha e não vê que a dor
Que sente não tem motivo

*
Na gordura, o empecilho
Cada quilo uma vergonha
Cada vergonha estribilho
E em cada verso o que sonha:
Não querer corpo vendido
-Prostitui-se a formosura-
Querer, do ventre nascido,
Alimentar a criatura
Não querer que sobreponha
A cor pelo sentimento
Não querer que o que se sonha
Seja, ao mercado, fomento
Querer que da humanidade
Seja o útero expressão
Querer que fragilidade
Não seja submissão
E um sentimento lhe chega
Como nunca até então
Um sentimento que nega
A busca da exploração
Um sentimento que acampa
E marca a sua mão
Vendo que a marca se estampa
Na palma de outra mão
E que as mãos espalmadas,
Uma a uma, mão a mão
Não se unem acorrentadas
-resquícios da escravidão-
Hoje, presas, são libertas
Uma a uma, mão a mão
Livres-presas apontam certas
A fazer revolução

17_18/02/11

domingo, 3 de abril de 2011

Luta Educadora


Se os poderosos senhores
Impõe-nos à força bruta
Silêncio pras nossas dores
E dor pra nossa labuta
Não calam os educadores
Só educa quem reluta!

Quanto mais a gente luta
Mais a luta nos educa!

Aprendi em movimento
Que quem pára se amputa
E é vão o conhecimento
Que não espelha a conduta
Educa-se o pensamento
Sendo parte na disputa

Quanto mais a gente luta
Mais a luta nos educa

Se a luta é educadora
Então que ela repercuta
Contra a mão opressora
Que a educação refuta
Que a classe trabalhadora
Una-se toda em luta

Quanto mais a gente luta
Mais a luta nos educa

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O pesquisador

Aquela cena vil alarmaria qualquer opinião pública. Um homem que se auto-esquartejava consciente e sedento. Primeiro admirou a arma letal, um instrumento científico de sua busca. Uma faca tão limpa, tão cristalina que poderia fazê-lo ver até dentro de si. Admirou também as parábolas semi-perfeitas lameliformes de seu apetrecho que lhe faria abrir senão os olhos, ao menos, muitas partes de seu corpo.
Iniciou sua busca. Num movimento rápido, irrefletido levantou o braço onde poderia e com toda sua força baixou-o num impulso tão exato que lhe decepou a ponta do dedo, mantendo a unha intata (porém vermelha). Olhou bem aquele pequeno objeto orgânico. Não continha o que procurava. Pensou que talvez fosse pequeno demais, que por esta razão em seu pouco tamanho não coubesse a importância tamanha de sua pesquisa. Cortou o dedo por inteiro. Era o polegar. Teve de cerrar a junta. Sentiu dificuldades para remover o dedo. Mas o fez. Fora do corpo aquilo era quase inidentificável. Certamente não estaria ali o que procurava.
Olhou fixamente para sua mão aleijada. Era bela e graciosa e ao mesmo tempo rude onde se condensava todo o trabalho humano. Absolutamente toda produção humana que se recordava neste momento, de alguma maneira havia passado pela mão. Quantas outras mãos a sua não havia segurado?! Como era bela! Decepou-a.
Olhando aquela mão deficiente, mais pelo braço que lhe faltava que pelo dedo, percebeu que ainda não estava satisfeito com os resultados de sua pesquisa. Sem muitos outros motivos que não o de que o braço sustenta a mão e lhe dá força cortou seu braço quase à altura do ombro. Ficando apenas com um cotoco pendurado. Não preciso dizer que a cena era pavorosa e que jatos de sangue eram lançados. Não digo por que não duvido de sua capacidade de perceber o que é óbvio. Por outro lado, se quisesse construir uma cena limpa, comentaria sobre como a amputação havia sido feita provavelmente dando-lhe uma roupa branca, um chão branco, teto e paredes brancas e as diria limpas no final da pesquisa.
Mas decerto não foi assim que ocorreu. Por isto iniciei dizendo que a situação era chocante. Lembrando dos passos que o haviam levado até a atual situação o homem cortou seu pé. A mão era definitivamente importante, mas o pé metaforiza toda a busca, por levar todo o corpo a (quase) qualquer destino. Desta forma, o pé passou a ter a beleza da mão. Diferente apenas porque possuía uma perna. Pronto. O problema estava resolvido. Triou a perna. E ficou assim: com todo o lado esquerdo deficiente. Não se dava ao trabalho de cortar os dois lados porque sabia que o que procurava, se não encontrasse em um, também em outro não encontraria.
Pôs a ponta da faca junto ao peito. Apertou com tamanha força que lhe perfurou mais que pretendia. Sentiu a faca tremular com batidas constantes. Quando retirou-a puxava junto aquele órgão dos sentimentos. O que ligava uma pessoa à outra. Mas naquele momento não conseguiu enxergar um só sentimento dentro daquele oco pulsante. O que conseguia ver é que, talvez, o músculo ligasse não a outra pessoa, mas a si mesmo. Sentiu-se uma casa, e viu o coração como a rede elétrica. Não! Talvez o coração e as veias fossem o encanamento. Então a rede elétrica seria o cérebro.
Não sabia por onde arrancá-lo. Por isso pegou outro instrumento. Um martelo. Era comum, e não possuía a beleza da faca. Mas ajudaria quebrar o crânio para retirar este novo elemento. Agora sim, sentia que estava próximo daquilo que procurava. Quebrou o crânio e tirou com cuidado os cacos para não ferir o órgão desejado. No cérebro é que estavam contidas todas as informações do corpo. Olhando para aquele objeto, segurando-o na mão, na que sobrara, retornou uma reflexão feita séculos antes: “Ser ou não ser”. Mas, abandonando o motivador da reflexão descobriu que a essência do seu ser não estava ali, e era isso o que buscava.
Tirou do seu corpo todas as partes possíveis e impossíveis. Língua, garganta. Pênis, ânus, dentes. Retirou o pulmão (apenas um), o mesmo com fígado, estômago e enfim, grande parte da pele. Após tê-los removido todos, e muitos outros que aqui não citei, retirou olhos e ouvidos que o ligavam ao mundo. Aí também não encontrou a sua essência. Então como um quebra-cabeça desmontado morreu. Porém, sem a esperança de que uma criança quisesse brincar de montá-lo.
Quando se fez espírito, ainda continuou sua procura. E, de alguma forma, com uma força interna que não sabe de onde, conseguiu explodir e perder toda a sua possível massa. Mas continuava de alguma forma em posse de sua essência. Portanto, não era o espírito. Agora a reflexão tida há pouco tempo atrás fazia ainda mais sentido. Porque mesmo não sendo, possuía alguma existência. Uma existência que transcendia ao ser. Uma existência do não ser. Sua pesquisa havia falhado. Não encontrou o que buscara. Também não encontrara mais resposta, só mais perguntas. Nunca poderia perceber que sua essência não provinha de nenhuma certeza, mas de dúvidas. Se conhecesse esta verdade, duvidaria, ou, se acreditasse, então desapareceria e nunca teria existido.

Jonathan de Oliveira Mendonça
Macaé, 09 de julho de 2010.
04h34 

domingo, 12 de dezembro de 2010

Um devaneio hipnagógico

Tento escrever poesia
Mas a dureza do dia
Embrutece o sentimento
O coração que é surrado
Bate forte e magoado
No peito que morre lento

O corpo todo reclama
Do pé que carrega a lama
À mão que carrega o calo
E o ombro que leva o mundo
Fala em cochicho, resmungo
Do peso de carregá-lo

Penso na filosofia
Mas a dureza do dia
Emburrece o pensamento
Os olhos querem descanso
E o cérebro fica manso
E a cabeça dói por dentro

Lembro “Não ter ou não ter”
Porque pensar é poder
E não se pode pensar
O Tempo é só pro sustento
Quem pensa perde o momento
Que tem pra se sustentar

Hipnagógico penso
No instante utópico  imenso
Entre o real e o sonhar:
“Um dia vou entender:
Porque é que preciso ter
Para poder precisar?”

Jonathan Mendonça, 12/12/2010

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Era

     A vida para ela
( E A vida pára para ela)
     A vida paralela à dela

Cansando
De novidades defuntas
De paraíso imperfeito
Das mãos que obrigavam-se juntas
Da boca gasta de peito
Do peso de ser amado
Do resto do mundo inteiro

Dela era

Dera
A vida que dei pra ela

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Já vestida, à minha vista,
     ela continua
                  nua

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sim. Estava triste. Possuia uma tristeza no olhar característica aos desapaixonados da vida. Já não havia muito que comemorar embora soubesse perceber maravilhas em peculiaridades. Olhava o Sol, o Céu, as formigas e estas coisas o faziam refletir. Pensava. Estava triste. Seus maravilhosos amigos o diziam: Fica feliz! Imploravam: Fica feliz! Impunham: Fica feliz! Obrigavam: Fica feliz! Mas ele não se submetia àquela ditadura da felicidade. Refletia sobre o tempo; sobre a história; sobre as contradições dos humanos e sobre suas mazelas. Pensava em Deus, no Universo e na vida real, na barriga esfomeada do menino de rua. Fazia relações metafóricas verdadeiramente lindas e tristes que podiam comparar um inseto a um homem. Outras menos belas, mas ainda tristes, que podiam relacionar Deus ao ser humano. Via a beleza na tristeza. Não a mesma beleza. Não era a de se usar um cachecol em dia de frio. Era a beleza de sentir o frio pelo outro que não teria o cachecol. Tinha a sensibilidade de entender que a felicidade não era senão sinônimo de esperança. E que a esperança não era senão sinônimo de atitude. Então abaixou a bandeira branca e feriu-a antes de hasteá-la vermelha. A bem da verdade, vermelho sempre fora sinônimo de Amor!


domingo, 16 de maio de 2010

Outro dia, pensava eu sobre coisa alguma quando repentino, surgiu-me um pensamento de infância. Hoje não o olhei com tamanho ufanismo como nas explanações de outrora. Todavia, tive carnho pela lembrança.
Quando assim pensava, não tinha nenhuma consciência de pensamento político. Ainda acreditava nos mais carismáticos que iluminavam-se à televisão ao relatar-nos nossas próprias vidas como se dela fizessem parte.Houve a vez, abracei um destes que, por acaso de campanha, maquinou o sorriso e apresentou-o mais branco que posso me lembrar, no colégio onde estudava. Eu era menino. Meus braços não poderiam envolvê-lo - sequer chegar às costas, ou pelo curto que eram os braços, ou por imensa que era a sua circunferência. Ou ainda, quem sabem, os dois.
Não citarei o nome do indivíduo. Não porque não lembre. Recordom-e a sonoridade engraçada que fazia os mais espertos caçoarem do circunferente. Eu, de minha parte, achava engraçado apenas. Mas não o citarei porque não o quero que perdure. Há nomes que não devem ser reproduzidos, porque assim, se presta um favor na intenção de um desserviço. Tudo aquilo que se diz em adjetivo ao nome de alguém, quer qualitativo, quer pejorativo eleva o nome, se não no céu, ao grau da existência. Entretanto há nomes que devem ser relegados ao esquecimento, não ao inferno. Peno que se os evangélicos quisessem, por exemplo ganhar sua infinita batalha contra o diabo, seria uma boa estratégia não citar seu nome. Também não seria legítimo criar-lhe apelidos, porque  estes também são nomes. Mas, em vez disso, deveriam sequer nomeá-lo.
Há-de se concordar que o fuleiro ficaria indignado ao perceber que seus grandes rivais o ignoravam. Os evangélicos aqui guardariam-se apenas a bem investir seu tempo louvando o Nome de Seu Senhor. Quem sabem, desta forma, o "..." não fosse aos poucos sentindo fromigar os dedos, e as mãos, e os braços, e todo o corpo, gradativamente. Ao passo que enquanto formigava o segundo grau, o primeiro , lentamente ebuliria ao infinito etéreo da inexistência?
Quanto tempo sobraria para se dedicar exclusivamente às ações benignas aos pobres e desaventurados!
Mas deixemos de falar de Deus, do Diabo, dos evangélicos, e do político. Não foi isso que me propus relatar. O que inclinou-me à escrita não foram estes seres fantásticos sobre os quais se há também muito a dizer, certamente, mas uma singela lembrança de um pensamento de infância. Um pensamento puro...

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Eu, que sempre tive medo do tempo,
Encontro-me diante a ti e fico
Perplexo, obtuso;
Nada mudou, não fosse o capim da tua casa que cresceu,
Enquanto esteve fora.
Ah, que medo eu tive!
Medo de que este tempo pudesse me dar
Motivos pra sofrer quando, te vendo,
Não lhe reconhecesse o mesmo,
Mas é divino que o tempo
Não nos tenha feito prosseguir.
Guardou-nos os mesmos problemas,
As mesmas casas, nos mesmos lugares;
Guardou-nos as mesmas ruas,
Os mesmos itinerários,
As mesmas praias, e as mesmas estrelas.
Não tivesse a sua voz ficado grossa
A contar as novas histórias
Poderia confundir hoje e ontem
E talvez ignorar por completo o tempo que se passou
Sem que meus ouvidos pudessem se acostumar
Aos poucos com as dadas mudanças acústicas
(E este tom grave já distorce da minha memória
O agudo da tua voz de há uns temos atrás).
Não poderia contar quantos dias
Pensei em lhe encontrar mais uma vez
A contar tudo o que de novo se passou:
Passei no vestibular,
Sou professor,
Namorei (e você nem pôde conhecê-las a todas),
Fiz novos amigos, fiz grandes amigos
E, contudo teu lugar continuou guardado,
Intato. A espera da tua volta.
Não poderia contar quantos dias
Pensei em lhe encontrar mais uma vez
A ouvir tudo o que de novo se passou...
Quanta água escorreu?
Quanto mato surgiu?
E como a cidade mudou...!?
E hoje, cá estamos. Finalmente!
Podemos ir juntos à praia
Ouvir Legião Urbana
Ou brincar de fazer nada.
Podemos [re]cortar o capim do seu quintal.