sábado, 21 de maio de 2011

Currículo da Pobre Preta, Gorda, feia, velha... e ainda Mulher. E a busca de emprego!

Escrevi este currículo
Bem que possa parecer
De fato um tanto ridículo
Porém, por estranho ser,
Que o leia atentamente
Curioso ao diferente

Dados Pessoais

Nome Completo: Maria
Santos Silva de Oliveira
Habito em Olaria
Por três visitei parteira
Sou do Rio de Janeiro
Trinta e nove anos inteiros

Sobre a forma de contato
Telefone é orelhão
Mas não tenho um de fato
E e-mail, não tenho não
Por não ter computador
Que é caro e é pra Dr.

Experiência Profissional
Experiência é tanta
Que aqui para relatar
Posso até perder as contas
E se acaso não lembrar
Importa o que aqui está
-Nem sendo isso alguém lerá-

Eu já fui Dona de casa
Trabalhei de diarista
Tudo cons filhos n’asa
Como feito de artista
Fazia comida, lavava
Roupa e tudo agüentava

Preocupada com o marido
Bonita o quanto possível
Maquiava... e o leite vivo
Derramava imprevisível
Limpava o fogão correndo
Sendo dez uma só sendo:

Mais novo querendo comer
Outro querendo fumar
A menina quis crescer
Por isso resolveu dar
A patroa quer as roupas
E fala boas e poucas

Escuto sem reclamar
Limpo a bagunça todinha
A minha, as do meu lar
E aquela que nem é minha
Pra cuidar do meu marido
E dos meus filhos queridos

Cursos

Curso, eu tenho os da vida
Que a vida não concedeu
Que eu fizesse outros na ida
Do curso que a vida deu
Sei apenas lé-com-cré
(Isso não basta, não é?!)

Foto 3x4

Agora o que mais importa
Pelo que eu sempre noto
Relatarei... sobre a torta
Que aparece na foto:
Preta, Gorda e feia é
Velha, e ainda mulher!

Mas relato defendendo
Com argumento e vigor
Pois qualidade é adendo
Pro povo que é sofredor
O que eu quero é trabalho
O resto, eu como com alho!

¹
Sou preta, cabelo ruim
Mas não dispenso labuta
Se mi’a mãe me fez assim
Chame de filha da puta
E meu cabelo de ouriço
Porém, me dê o serviço

Se pensar bem, tu verás
Que pra uma maior usura
Melhor mi’a pele que traz
A marca da escravatura
Que o salário desce mais
E o teu lucro assegura

²
Sou gorda, do braço forte
Mas não dispenso labora
Se a vida não me deu sorte
Chame de obesa agora
Diga que como chouriço
Porém, me dê o serviço

Se pensar bem, tu verás
Que pra uma maior usura
Pior ser magra demais
Melhor sobrar a gordura
Que o salário desce mais
E o teu lucro assegura

³
Sou velha, de trinta e tantos
Mas não dispenso a panela
Se a idade tira os encantos
Velha e feia é mais que a bela
Chame até de estrupício
Porém, me dê o serviço

Se pensar bem, tu verás
Que pra uma maior usura
Melhor pros saldos finais
Estar perto a sepultura
Que o salário desce mais
E o teu lucro assegura

4
Sou mulher, tenho vagina
Mas não dispenso a enxada
Se sou frágil e pequenina
Tenho a força ocultada
Ofenda-me e o catiço
Porém, me dê o serviço

Se pensar bem tu verás
Que pra uma maior usura
Bem mais que um macho voraz
Vale minha formosura
Que o salário desce mais
E o teu lucro assegura

Informações Adicionais

Já com o diálogo aberto
Vou-lhe chamando patrão
Pois creio que és esperto
E o lucro é tua ambição
Eis aqui a moça torta:
Preta, gorda, quase morta

Se cada das qualidades
Puxa abaixo o meu salário
E tu, só por vaidade
Não me contrata, és otário
Eu vou a um mais esperto
Que me contrata decerto

E quando lá estiver
Recebendo a metade
Meu patrão vai lhe dizer
Que o que eu lhe disse é verdade:
“Sempre é caro o branco e macho
Mulher e preta é capacho”

*
A marca da escravatura
A marca da ignorância
Arrebata a escultura
Que se exalta com pujança
Na testa da negra estampa
A inscrição de inferior
Com o sangue na mão branca
Sangue negro em seu senhor
E o sangue fora da vista
Derramado se esconde
E o branco capitalista
Finge não saber de onde
Vem o rubro escondido
-Não sabe a sua nascente-
E à leste, está esquecido
O gigante continente
Que chora a dor e a avaria
Da humanidade inteira
No sofrimento de Maria
Santos Silva de Oliveira
Que por possuir a cor
Do que é mais subjetivo
Apanha e não vê que a dor
Que sente não tem motivo

*
Na gordura, o empecilho
Cada quilo uma vergonha
Cada vergonha estribilho
E em cada verso o que sonha:
Não querer corpo vendido
-Prostitui-se a formosura-
Querer, do ventre nascido,
Alimentar a criatura
Não querer que sobreponha
A cor pelo sentimento
Não querer que o que se sonha
Seja, ao mercado, fomento
Querer que da humanidade
Seja o útero expressão
Querer que fragilidade
Não seja submissão
E um sentimento lhe chega
Como nunca até então
Um sentimento que nega
A busca da exploração
Um sentimento que acampa
E marca a sua mão
Vendo que a marca se estampa
Na palma de outra mão
E que as mãos espalmadas,
Uma a uma, mão a mão
Não se unem acorrentadas
-resquícios da escravidão-
Hoje, presas, são libertas
Uma a uma, mão a mão
Livres-presas apontam certas
A fazer revolução

17_18/02/11

6 comentários:

Prof. Pedro Marinho disse...

Enfadonha realidade, não a li por inteiro.

Jonathan Mendonça disse...

Preguiçoso!!! hehe

web disse...

É meu irmão, cada vês mais expressivo, lembro quando estava escrevendo, nem prestei muito atenção aos seus pedidos de "aprovação", mas de forma muito sincera lhe digo, que fiquei bastante emocionado ao ler e remeter-me a fatos como este por nós compartilhados.

Um abraço meu irmão, e vê se aparece em casa! rs...

Andrew Costa disse...

Muito bom. Na revolução todas as armas são necessárias, palavras, noites e poemas.

Deia disse...

Eu já era fã sua, vou ter que achar uma palavra que seja além de fã...

Que lindura, cara. Posso lê-la num sarau aqui em VR?

Desirée Troyack disse...

Muito bom.
Eu que sei o que é preconceito
(não pessoal, mas indireto)
tenho de negro, marido, filho, avô
e, se Deus quiser, um neto!
Entendo do que você fala
nada mais real do que o racismo
e se minha carcaça é alemã
só me lembra que não sou nada disso
Não concordo com esses atos
me ergo no que é direito
e se alguém julga pela cara
de certo não tem nada no peito
não vivo pelo meu umbigo
defendo o que é humano
sibamos amar direito
independente do pano